domingo, outubro 29, 2006

Cosi fan tutte

Sei que peca por excesso e por defeito, sei que é mau, sei-o todo. Mas por favor abandona-me por um pouco, orgulho...
Tu também, Pessoa, Ivanhoe!, abandona-me ele, ela, nome estranho.
Hoje está um bafo que apetece. Hoje sabe-me a boca a estufa e cheiro de estio. Hoje apetece deliciar-me na 1ª pessoa (apetecia-me ver que leste e comentaste o que escrevi...); hoje está um ar que apetece cair na falta de gravidade apenas por um bocadinho não literário. Apetecia-me dormir, acordar e ver que no Mundo Novo estavas sempre aqui. Tantas e tantas vezes que até me cansei de ti e tu de mim. Tantas e tantas vezes que ver-te chegar já não era surpresa. Tantas e tantas vezes que eu enjoei do que vestias e tu do meu corte de cabelo. Tantas e tantas vezes que tu perdeste todo o interesse em mim e eu pensei muito mais noutras pessoas. Mas tantas e tantas vezes antes de essas vezes terem chegado nós estivemos. E só isso, por ora, me interessava.
Não vaciles, não. Então não sabes como sou? Não me acredito em nada do que disse. Mas também por alguma coisa gosto tanto deste nosso Velho Mundo.
Tu não?
Fibonacci

quarta-feira, outubro 25, 2006

Uma outra Malinche

– Era quem matasse o tempo! – vociferou Malinali. Voz e punhos cerrados. Sobrolho e dedos carregados. Os olhos, muito verdes como os da mãe, faiscavam laranja e vermelho como o pôr-do-sol na sua terra-natal.

«Não podes matar o tempo, Malinali, não podes... E mesmo que pudesses de nada te servia. O tempo arrancou-te aquilo que és, eu sei. Mas o vazio nada te pode trazer.» Cortés pensava tudo isto no seu olhar tão doce, que Malinali não precisou que falasse. Como aliás nunca tinha acontecido.
Tinham crescido juntos e desde que se haviam habituado a gatinhar e comunicar sem precisar de palavras, nunca mais as usaram entre si.

Cortés era branco. Muito branco e muito loiro. A única coisa que lembrava o seu pai eram os olhos castanhos, muito castanhos e muito fundos, como chocolate quente. Malinali era negra e a única coisa que lembrava a sua mãe eram os seus olhos verdes, verdes como a água e como a terra. De resto, todos os seus movimentos, olhares, costumes e todo o seu coração espelhavam seu pai, sua terra, sua avó.

– O tempo levou-te, Malinali, mas não arrancou o que em ti bate.

«Como te podes esquecer? Como? Não te lembras, agora? Porque não te lembras?»

– Era quem o matasse, Cortés... – mas Malinali conseguiu então ouvir o que ele não queria. E, pela primeira vez fazia muito tempo, sorriu.
Sussurrou agora.
– Do tempo, de bom só a saudade. E mesmo essa, peço-te mata-a!

Os lábios de Cortés, entreabertos, cortejavam os seus, ela via. E deixavam antever um leve travo a canela e noz moscada. Como sempre, deleitavam-se a esquecer as palavras.

Fibonacci

Personagens e título inspirados
no livro «Malinche» de Laura Esquivel

terça-feira, outubro 24, 2006

Constelações


A grande árvore centenária ainda se mantinha de pé. Ladeada por muitas outras ervas colossais, nascidas nos tempos de outros deuses, mantinha-se firme na sua velhice e solidão, eternamente abraçada à Mãe-Terra.

Os olhos escuros do centauro pousaram nela. Todo o vale, do cimo daquele monte, lhe pareceu muito pequenino na sua vastidão imensa e verde. O vento zumbia nos seus ouvidos já marcados pelas durezas das guerras que havia travado. Morto pelo descanso do pós-batalha, derrotado nas cerimónias de honra e ócio, ambicionava há muito partir de novo. O arco e a flecha a tiracolo suspiravam por novas aventuras, sim. No entanto, o seu coração semi-humano não o deixava partir em paz. Eram aqueles olhos…
Mwadii observava ao longe o robusto guerreiro. Como queria, também ela, fugir daquela calma asfixiante! Como queria morrer na ébria confusão do campo de batalha, renascendo então das cinzas ainda quentes, no colo da morte menina. Queria voar. Queria agarrar o tempo e galopar à frente dele, fazendo-o engolir a poeira e a vingança dos anos que passou algemada à sua tribo e àquele odioso Vale, vendo o belicoso centauro partir. Desta vez ele não iria. Como se podia atrever a querer mantê-la segura na sufocação daquela paz? Aquele enfatuado, aquele arrogante! Como queria estar perto dele... Não! Abanou a cabeça e todo corpo numa rápida convulsão arrepiada para se esvaziar deste último pensamento intolerável.
O vento e os lagartos que a ouviam murmurar este discurso, também meneavam a cabeça, mas desaprovadoramente. Nem queriam acreditar. Aquela não era a Mwadii que haviam visto crescer por entre o calor abafado das ervas e os sussurros gelados da Noite. Não podiam acreditar no ódio quente e rouco que brotava dos seus lábios. Preferiam acreditar na brisa, que um dia por lá passara e lhes sussurrara, como um segredo, que aquele ódio ao centauro nada mais era que amor.

Fibonacci

Imagem e imaginação
cedidas por Arlequim.
Obrigada.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Chuva

A noite passara como ele passava todos os dias pela Rua de Cedofeita. A noite passara no seu passo apressado, com aquele olhar concentrado, onde os olhos semi-cerrados tentavam fugir, arrastando o corpo atrás de si. A noite passara sem eu dar por ela, e eu nem tentei segurar o tempo, colar-me a ele, como fazia. Não. A noite passara como se nem existisse.
E lá fora, o tempo gritava. Arrancavam-lhe um dente podre sem anestesia e ele queria berrar toda a dor, queria exorcisá-la para sempre do seu corpo. O tempo chorava lá fora e toda a baba e angústia pareciam domar as árvores que tremiam (tremiam e soluçavam como varas verdes que, agora mais que nunca, preferiam não ser!). Lá fora o tempo gritava bem alto tentando acordar-me. Mas a noite embalou-me demais e não o ouvi.
E foi então que me apercebi da sua presença. Daquele pequeno lamento. Não, não era um lamento. Era uma música. (Música tão baixinho, àquela hora?) Uma benção, talvez...
A chuva caía mas não era daquelas que lembravam as tristezas da noite anterior. Não. Aquela chuva lembrava gaivotas, mar, nevoeiro, coisas boas, gelados em dias frios de Verão. Lembrava o medo que os gauleses tinham de que o céu lhes caísse na cabeça, lembrava pedacinhos de céu a cair na minha cara, nas minhas mãos, nas palmas das minhas mãos como conchas, tentando levar para casa, na pele, um presente das nuvens.
Aquela chuva segredou-me baixinho, para nunca me esquecer. Rodeou-me e apenas me sussurrou "Como é bom sonhar de manhã, ainda debaixo de trovoada!" E eu não disse mais nada, com medo que tu desaparecesses.
Fibonacci

domingo, outubro 15, 2006

D. Maria e as 15 Palavras

As ruas iluminadas saudavam o seu andar pachorrento, de passos curtos e abafados, sorridentes de tanta saudade. Tinha iniciado aquela viagem, fazia nesse dia, 82 anos. E que viagem!, pensava.
Tinha uns olhos bonitos, D. Maria, eternamente sorridentes no seu brilho-chocolate, mesmo quando as cataratas ameaçavam já a sua liberdade. Havia sido com eles que D. Maria, no fulgor da sua ilusão (como gostava de chamar à juventude!), tinha presenciado o desvendar do mito, da Noite e do céu. D. Maria parou. E ali, naquela rua, lembrou-se. O calor abrasivo da eira, o céu de estrelas tão desenhado. Enfim... A sua crença.
Já lá iam uns sessenta e cinco anos...

A Mãe-Terra anunciava no seu vermelho-fogoso a primeira noite de Verão mas, abraçada à Noite, escondia-o no amarelo-suave em que a Lua, sua oriunda, se deleitava. Maria gostava correr para a eira, todas as noites de Verão e aí deitar-se a falar com a Terra, as cores, naquela cirurgia do solo, que todos os anos se regenerava para que o Homem pudesse, mais uma vez, cortá-lo e arranhá-lo, para se tornar uno com ele, num agradecimento profundo à Água, à Terra e ao Sol.
E foi então, naquele divertimento de acção de graças, numa gargalhada curta de Vida, cheia de nada e de verdade, foi então que viu o céu. Rompendo-se em dois, deixou cair a sua bênção, água que correria para sempre no rio que ali dormia perto. E ali Maria compreendeu aquele ciclo, a beleza do “bis!” que a natureza gritava todos os anos.

D. Maria acordou das suas recordações com as correrias de umas crianças que, de novo naquele primeiro dia de Verão, agradeciam àquela bola, não à Terra, que os fazia gritar “Golo!” no calor contente das férias. D. Maria sorriu. Distinguira perfeitamente a voz de Artur, seu neto. Sim. Ela sabia que aquela viagem ainda valia a pena.

Fibonacci

sábado, outubro 14, 2006

Pós-Fogo

Deixei-me voar, eu sei. Voei um pouco demais. Agora que relanço o olhar do verde limão ao horizonte e vejo o reflexo dos monstros no rio, agora percebo.
Quantas palavras!
Repito para mim mesma, para nunca me esquecer. Repito que as palavras que voam não nos deixam aterrar. E agora, aterrada, caída na margem direita do rio, revejo a avionete em cinzas, lembradas ainda do calor que foram no repasto da noite anterior. Naquela calma de quem mais nada teme, até poderia ser contente. (Arribei às docas do pânico no fogo, porque haveria de, agora, não querer encarar a solidão do rio, à minha esquerda, ou da selva que me cuspiu e me olha feroz?)
Olhava a terra, a querer renascer um pouco mais verde. Poderia dizer que, na calma do que passou, me atrevia a me pensar feliz.
Mas há caminho.
E, sim, tenho um outro medo.
Tu viste o fundo do poço quando eu só olhava o meu reflexo nele, agora que quero ser a água, corro o risco de afundar.
Se outros perguntaram porquê o nome daquela rosa, eu só queria saber porquê o teu nome. Esse nome. Essa coisa, palavra e som que te agarra.
Quando apenas se resume a um pequeno passo para dizeres quem és.
Fibonacci

sexta-feira, outubro 13, 2006

Adamastor

Naqueles dias de que lembro, havia uma certa sorte. Uma sorte danada, um raio sem escolha, um escolho contente. Um delírio, Adamastor!
E ai de quem a visse, que ela era cega. E ela dava voltas, naqueles dias de que me lembro, porque não tinha onde parar.
Mas, naqueles tempos sem dias, nada foi acaso, jogo, incerteza. E a meta de todos os Homens e animais tornou-se a procura. Mas só a sorte, danada!, era a achada...
Eu vendi a metade pelo terço, rosários por carvão. Num quarto de casa que o botão não ocupa e o sorriso não alcança. Sim. Foi nessa dança, naqueles dias sem tempos e tempos sem dias.
Eu não parei. Não ia olhar para trás. Não ia ser sal.
Renunciava a todo mal!
Agora tenho o medo de, na confusão do atalho, (um trabalho que não é teu), te percas, Romeu! Metade que completa.
- Hiberna, Verdade, que há-de chegar a tua razão quando o coração pressentir a luz da Noite por um só olhar.
E eu só quero cumprir o destino. E estou tão bem assim. Tu é que sabias, como sempre... Matar as saudades.
Fibonacci

terça-feira, outubro 10, 2006

Sintomas

«Síndrome, alma, recato, maravilha, tonalidade, imortalidade, pesticidas, romanticidas!, metáfora, anáfora e ana-crusa.
(...)

Podia continuar. Mas antes parar que aquela Palavra entendeu aparecer e já aqui chegou.
Sim. Saudade.
Saudade vem do latim solitas, a solidão. Mas nós rodopiamos tanto à sua volta que ela já se perdeu na décima segunda onda. (...)
Nunca nada se viu como essa Palavra Saudade. É uma solidão doce, com um gosto a amores esquecidos pelo ar e pela lua. É uma solidão simples. Uma simples solidão por apenas faltar alguém. E esse espaço é uma ébria melancolia sóbria. Um desamor correspondido.
E eu podia contar-te tantas histórias da Palavra Saudade! Um dia fugiu, tornou-se música.
Nasceu o Fado.»
Fibonacci

Texto redigido
aquando do trabalho
«A minha palavra preferida»
para a disciplina de
Língua Portuguesa

sexta-feira, outubro 06, 2006

Passo double

Tenho a certeza que daria certo. Sim, tenho a certeza. E eu ia contar-te essa história mil vezes e outras mil e mais umas sem conta. Mostrava-te os meus rascunhos, como quem mostra estrelas. Podia apresentar-te às minhas coisas, como quem aponta constelações numa noite de Verão. E eu ia...
Mas tu, calado, calas-me. Dizes que não. Danças o teu pé esquerdo como se fosse o meu e num tango desenfreado tu falas. Pelas mãos, pelos olhos, por todos os teus poros a brotar água tu falas.
O foco cai sobre ti e eu corro a levantar o pano. Escondo-me do teu solo. Só teu. Porque só quando tu falas ou sorris é que o teu mundo é meu. Mas a música sussurra mais alto que o meu bater descompassado e desafinado a latejar nos ouvidos. E pára. A música pára e aquela força mais forte que a gravidade puxa-me e empurra-me e eu já não posso fazer nada.
Passo double.

Oh sim! Tens toda a razão.
Fibonacci

domingo, outubro 01, 2006

Parte III (Terceiro acto)

Agora era o mar que ali encontrava a paz eterna.
A manhã e a maré subiam e o sol impunha agora a sua presença. Aquecia as algas e o sal. Aquecia a vila que ardia e fervilhava no mercado e que, nas praças pachorrentas, se deitava a descansar. O burburinho do mar sussurrava no fundo do canto dos encontros.
Quando saiu, Marina cumprimentou a praia ao de longe, levantou-lhe o chapéu como velhas conhecidas. Depois, sorriu ao sol desculpando o chapéu - não era nada contra ele!, ele que não levasse a mal. Enquanto se dirigia ao mercado, observava as ruas e as pedras, tão pretas e quentes nos seus pés quase descalços, ria-se às paredes caiadas e aos vendedores de refrescos e gelados. Tudo naquela manhã lembrava o mar e, no entanto, ele parecia esquecido pelas pessoas, pelas ruas e pelas pedras. Mas ali continuava, espelhado pela água das fontes, pelas mãos das vendedeiras, nos olhos de Marina e no seu nome... Especialmente nos seus olhos. Nos seus olhos negros de chocolate. Nos seus olhos que um dia haviam testemunhado o mais sagrado dos rituais da água. Nos seus olhos em que um dia o mar se havia perdido.
Perdida também nos seus próprios lugares, olhou aquele horizonte cor-de-céu como se o respirasse pela última vez. Expirou-o então, como quem se purifica do ar, do chão, do tecto de poeiras que, por agora, não sentia mas que anunciavam a chegada da estrada que daí a uns dias a levaria para longe da sua única casa.
(Continua tu. Querias saber o fim. Não sei se ainda queres. Mas, assim, pode ser que lá chegues primeiro que eu.)
Fibonacci

«Nas manhãs de Itapuã que o vento varre
Os coqueiros já conhecem as canções
Repetidas ou
Repentinas vêm
Consolar o meu coração
As vontades vêm
As saudades vão
Amanhece mais um verão


No calor do sol o céu da boca salga
E o mar na alma acalma o caminhar
Pra que haja areia sal e água e alga
As ondas
Não voltam


Cada dia uma nova eternidade
Para sempre aquela pedra roncará
A aurora se transforma em fim de tarde
De novo
De novo»

Arnaldo Antunes

domingo, setembro 24, 2006

Silêncio tempo

À Mafas.
E não só.
Hoje sentei-me e lembrei do que disse uma vez. Disse-o para fora. Mas, acredita, disse-o a pensar em mim. E em tudo o que fui quando pensava naquilo que tu sabes, mana, porque ouves cada letra que arrancas da minha cabeça e cada palavra que me voa do peito.
Os olhos não mentiam. Ou melhor, o mover de olhos, brando e piedoso não enganava ninguém. Ela sempre tinha olhado bem em frente e de maneira tão audível! Agora definhava o seu sorriso e desfazia-se na ausência de lágrimas. Nessa altura preferi que chorasse.
Se assim fosse, eu abraçá-la-ia e limpar-lhe-ia os olhos do lápis borratado. E ficaríamos caladas naquele silêncio bom. Mas assim, assim não. Aquele silêncio esmagador que é o silêncio de quem nada pode dizer tornava-se infindo. E então falei. Falei para não estar calada. Mas ao falar, compreendi-a.

- É tão bom gostar de alguém. E doer a cabeça por essa pessoa, por vezes, não parece tão mau como esvaziar-se dela!
E aí percebi que não falava dela, daquele espelho reverso e tão semelhante a mim, irmã gémea tão fora dos genes. Não, eu não falava dela. Falava de mim. Falava de mim e do que não queria nunca mais falar. De ti. Porque contigo eu percebi esse silêncio bom. O silêncio de quem tudo disse naquele olhar, nas mãos daquele abraço, no cabelo, nos lábios e no espírito. Em mim. Mas não nas palavras.
Percebi principalmente o silêncio tempo. Não a palavra tempo. Esse mistério para os Homens, deixo-o a quem o quiser apanhar. O silêncio tempo é grande, muito grande, e muda tudo. No silêncio tempo, vivi-te, morri-te e fiz o luto, esqueci-te e voltei a encontrar-te. No silêncio tempo encontrei-te e agora sei que estás sempre aí. Porque és Goldmundo e eu Narciso. Porque sou espírito e tu alma. Porque amigos. Eu sei... Amigos naquela palavra que reservo para ti, para ela e para poucos mais, porque essa palavra maior não se diz. Sorri-se.
Fibonacci

sábado, setembro 23, 2006

Pedro tem asas

«Todos os Homens têm asas.
Pedro é Homem.
Pedro tem asas.»
Os anjos são pessoas boas.
Inês é boa pessoa.
Inês é anjo.
O que vive, morre.
Pedro e Inês vivem.
Inês e Pedro morrem.
Mas Pedro tem asas.
E Inês é um anjo.
Como poderam chorar?
Melhor viviam.
Melhor morriam.
Se os deixassem voar.
Fibonacci

domingo, setembro 17, 2006

Isto é só um copo

Finalmente. Música para ouvir de olhos fechados e sentir de mãos abertas. Finalmente. Música.
Música que antes de ser música era poesia. Poesia que antes de ser poema era sentimento.
Ouviu-a em apenas duas respirações, aspirou-a num só fôlego e deixou-se cair, cansada e espantada depois. Sim, finalmente música. E parecia que a banda sonora não acabava ali. De repente, sentiu como um salto na vida. Uma independência. Uma vontade de mudar o visual como nunca tinha feito. Um novo look. Não. Uma nova atitude. Apenas uma vontade de nunca mais andar com as costas curvadas. Ser como era e tinha muito orgulho em ser.
E em toda a esfera, a vida parecia-se cada vez mais com aquela música. Chorava as canções que cantou para si mas apenas queria abraçar a lua aquela noite. E nunca mais pensar só em si para estar sóbrio.
As coisas não tinham o mesmo significado. Em nada. Não, não ia seguir um curso normal, cheio de educação e boa vontade. Não, iria para as terras mais longíquas estudar o que sempre tinha sentido como a sua verdadeira vocação. Vocação, não, paixão. Devoção. Criptografia. Uau. Que nome pomposo. Nome perfeito para esta nova fase.
Os últimos acordes marcaram o fim daquela música. Fase. Hmm... Nunca tinha gostado daquela palavra. Fase. Passageira. Efémera. Maligna. Mas também o contrário a assustava. E, se a arte é tão efémera assim, porque não o pode ser a própria atitude? Talvez daqui a um ano descobrisse que tudo não passava de mais uma fantasia e voltasse para a sua licenciatura bem portuguesa e estável. Mas agora, agora não.

Replay.
Do início o som, segundo zero.

Afinal, que mais é ter dezasseis anos?
Fibonacci
Isto é só um copo
Eu não bebi de mais
Achei que era diferente
E são todas iguais.
Escrevi canções sobre ela
Mil noites sem fim
Deixou-me neste bar
A cantá-las pra mim

Eu bebo da garrafa
Tomo um gin de manhã
Se oprincipe era o sapo
Ela devia ser rã.
Eu amo quem eu sei
Que não me vai amar
Mas só assim me dá
Vontade de cantar

Mas a dor insiste
Não dá pra esquecer
Mas o peito insiste
E não a deixa morrer

E eu não vou deixar de beber
Como gin
E para estar sóbrio não basta
Só pensar em mim

Nao era isto qu’eu queria ser
E o que me deixa mal é o que me faz viver
Sinto a roupa fria e o corpo dorido
Sinto o cheiro a vinho mesmo sem ter bebido nada

Isto é só um copo
A boca já me arde
O homem varre o chão
E diz que já é tarde
“Senhor só (bon voyage) é hora de fechar”
A lua é a mulher
Que hoje vou abraçar.
Ornatos Violeta - Dez Lamúrias por Gole

domingo, setembro 03, 2006

Roda Viva

Ela nunca pensou que isso pudesse mesmo existir. Uma terceira dimensão. Sempre tinha tido as suas coordenadas fixas: tempo e espaço. As palavras mais confusas, as declarações mais apaixonadas e os discursos mais preserverantes. Tudo o que dizia, respirava, escrevia e o que, no fundo, a guiava eram sempre precedidos do tempo e encontravam-se no espaço.
(Hoje, (...) Sim, hoje! Percebeste bem? (...) Não, isso só posso entregar amanhã. (...) Onde? Claro que estará lá!)
Mas o tempo passou.
E agora o tempo só é preciso para dizer «Agora já não há tempo».
E não sinto o tempo, nem a distância. Só o mar.
E, sim, estou com os sintomas da saudade.

Por Chico Buarque e Fernanda Porto,
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira pra lá
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola pra lá
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
Chico Buarque
Fibonacci

terça-feira, julho 11, 2006

Façam as vossas apostas

Apetece-me arriscar
Faz, faz a tua aposta
Apetece-te viver como quem gosta
Não é para quem quer
Mas para quem pode
Quem acode e aguenta
A tormenta de ti.

Apetece-me arriscar
Aquele arrisco de começo
E só porque te conheço e reconheço
Que vou sair a perder.
Perder limpo.
Jogo sujo.
É o que sabes fazer.

Apetece-me arriscar
Arriscar a feijões e um beijo
E uma salva de palmas ao desejo
E uma vénia às leguminosas
Às poderosas que te sustentam
Nesse vício de pretensas
Ilusões do que vivi.

Um brinde a ti.
Fibonacci

domingo, julho 09, 2006

Você me apareceu

Você me apareceu
Fez o tudo virar nada
E vice-versa
Fui submersa
A azeitona na empada que era eu
Você é dona do caroço da azeitona da empada que comeu.
Você me apareceu
Fez o nada virar tudo
Me deixou mudo
De tão tamanha
'Cê me acanha
Minha estranha
É o prazer de que sempre padeço
É do fim começo e reconheço
Que o avesso sempre esteve aqui.
Minha estranha
É o engano de minha certeza
É o insano que há na beleza
A tristeza que me faz sorrir.
Você me apareceu...
Kaleidoscopio
Uma corda fora do sítio. Aquela corda fora do sítio não incomodava ninguém. Mas era, não o podia negar, uma corda fora do sítio. Tinha vivido sempre com a guitarra com aquela corda fora do sítio. E até gostava dela. Tinha-se habituado, com o passar do tempo, àquela corda fora do sítio. Que nunca, mas nunca (sublinhe-se!) tinha incomodado ninguém.
Quando ele passou e se riu, com aquele riso que não vivia sem o olhar dirigido à pressa para baixo, tão à pressa, tão para baixo e tão cuidadosamente pensado como o cabelo desalinhado naquele seu estilo don't care at all but do like to fashion you, quando ele passou e se riu, subitamente lembrou-se da corda fora do sítio.
A corda sempre tinha sido esperta. Sabia que não pertencia aí. Ao princípio resmungava e recusava-se a afinar e a cumprir o seu trabalho (mas afinal para que lhe pagava?). Mas depois cansou-se e deixou-se soar. A partir de então, soava sempre como ela lhe obrigara que fosse, mas o seu tom angustiado de não pertencer ali estava, mesmo que não o quisesse ouvir, presente.
O olhar, o riso, o cabelo, bem o sabia, eram para outras paragens, outras partituras. E todas as noites, o ritmo blue que sentia soava na caixa daquela guitarra com uma corda fora do sítio.
Sim. A corda sempre tinha sido esperta. E um sol não é um ré. Mesmo que tente ser.
(Epílogo: Esta noite, a corda fora do sítio partiu. Partiu desta partitura com o mesmo soar triste mas, sim, finalmente livre de ser o sol que devia ter sido. Tenciono substituí-la por um ré. Quanto ao resto, creio que outro alguém terá de rever as suas cordas. A mim parecem-me muito fora do sítio. Afinadas. Mas muito fora do sítio.)
Fibonacci

quinta-feira, junho 29, 2006

Parte II

O dia amanheceu cinzento e sem pressa e espreguiçou-se lentamente na ronca que guiava os pescadores. Ela espreguiçou-se também. Os fantasmas laranja e cor-de-rosa da noite anterior haviam deixado um leve travo de licor, memórias e fantasias na sua boca. A janela aberta não era mais que um quadro. O azul esbatido do mar perdia-se nos olhos dela. Já era corrido o tempo que ela se havia perdido no mar, no luar e na sua junção perfeita e eterna. Agora era o mar que ali encontrava a paz eterna.
(Continuei porque pediste. Mas não te conto o fim da história. A maré ainda vai vaza.)
Fibonacci

quarta-feira, junho 28, 2006

E agradeceu-o.

Com um sopro apagou a vela. Agora sim. Gostava do escuro e das formas contorcidas que a luz mal soldada da vela havia desenhado na sua parede. Olhou para o lado, ainda mal adormecida e, sem querer, sorriu. O Verão tinha coisas destas. Especialmente à noite. Deixava-a melancólica e sorridente, com saudades da lua e do seu reflexo na água. E isso fazia lembrar aquela noite...
O mar estava límpido e as estrelas indicavam-lhe o norte. Observava o seu reflexo na água, iluminada pelo luar mais bonito daquele ano. De repente, sentiu a sua mão no seu ombro. Ele nada disse. Ela olhou o seu reflexo e pensou que nada daquilo fazia sentido. Não podia ser ele a estar ali. Nem ela. Então, pela primeira vez, os seus olhares encontraram-se.
Eles já se conheciam, sim. Já muito tinham falado, rido e chorado. Mas os seus olhos nunca tinham mergulhado nos dele. Ele nunca tinha deixado. Agora, agora que o seu riso de criança já não impedia o seu olhar de sentir, agora ela podia ver.
Sim. Esperava aquilo. Aquele olhar. Finalmente um olhar de quem vê e compreende, não de quem foge do luar.
E, num movimento súbito, acompanhado pelo ruído de uma onda frágil que se esbatia nos seus pés nus, abraçaram-se. E elevaram-se a um estado no qual a matéria não mais se podia detriorar. Uma amizade. Selada naquele mar.
Agora, ali lembrada, pensou no beijo que tanto esperara mas que nunca havia chegado. E agradeceu a sua ausência. Agradeceu o abraço e a amizade. Agradeceu-o num sorriso dormido sem limites que apenas as gaivotas interromperam. E elas apenas anunciavam a madrugada.
Fibonacci

sexta-feira, junho 23, 2006

É nosso S. João. Isso ninguém nos tira.

Dança comigo
Apaga a fogueira.
Não há perigo de te queimares
Vamos subir pelos ares
Como um balão de São João.
E se o santo não nos acudir
Por enquanto podemos fugir.
Mal o sol romper
Rompemos também,
Não vamos além do que deve ser.
Amor a fingir só para aquecer
Ou para esquecer.

São João, bom pastor,
Quem amar em vão
Amará melhor, São João?
Dá-me um banho de amor
Uma paixão nova
De caixão à cova.

Dança comigo
Eu pés e tu passos.
Último abrigo serão nossos braços.
Vamos arder pelas ruas
E derreter nas setes luas.
E se o pastor não nos vigiar
Pecaremos por excesso e defeito.
Por cio e fastio
Sem culpa nem jeito
E apostaremos neste duro par.
Amor a valer só para aquecer
Ou envelhecer.

São João, bom pastor,
Quem amar em vão
Amará melhor, São João?
Dá-me um banho de amor
Uma paixão nova
De caixão à cova.
Junta Corações
«Estás apaixonada?» - perguntou-lhe com aqueles olhos de quem tudo sabe sem saber que já o haviam traído em muitas situações.
«Pela Vida, pelo amor em vão, pelo amor a valer, pelos amigos, pela alegria, pelas gargalhadas, pelos olhares, pela música? Sim. Estou.» - disse a sorrir. E voou. Rumo ao sonho daquela noite de São João.
Fibonacci

Hmmm... Momentos deliciosos

Momentos deliciosos.
Hmmm...
Sem dúvida.
Sim, têm razão. Não me posso esconder atrás das palavras, ou ainda me perco. Não posso fingir um labirinto de emoções, ou ainda deixo de sentir o sal. Mas hoje, sim, hoje nada disso pode acontecer.
Hoje, sim, hoje o mundo é bonito e redondo como uma laranja acabada de descascar que provoca o riso e a surpresa de quem é salpicado por um jacto de sumo.
Hoje, sim, hoje fartei-me de tirar fotografias, fartei-mede parar para dar tempo. Dar tempo ao cérebro para guardar as imagens, sons e sensações. E dar tempo ao coração para guardar os nossos sorrisos, gargalhadas, gritos, arrepios e canções.
Hoje, sim, hoje não me preocupo se existe mais alguém.
Hoje, sim, só hoje.
Se calhar, aquela mesa nunca mais vai ver um jogo como aquele (uma canção e uma gargalhada, no fundo). Ou então, se calhar, este foi apenas o primeiro de uma grande série (sim! eu não tenho medo de sequelas).
Se calhar, aquele baloiço nunca mais vai ser tão martirizado, nunca mais vai ser um avião tão importante para quem só queria voar. Ou então, se calhar, como ainda não caiu, ainda vai ver alguém cair e rir do joelho esfolado que queria ser parapente.
Se calhar, aquela mesa nunca mais vai suportar um lanche assim. Tantos cotovelos lá apoiados, tantas cabeças apoiadas nos cotovelos lá apoiados, tantas gargalhadas e gritos cantados apoiados nas cabeças apoiadas nos cotovelos lá apoiados. Ou então, se calhar...
Hoje, sim, hoje eu vivi.
E o galo nunca me vai deixar esquecer isso.
Fibonacci