sábado, dezembro 23, 2006

O dia em que nevou no mar

Dizer pouco é bom, pensava enquanto esmigalhava areia pelas luvas. Dizer pouco sabe bem mas há uma sede de aqui voltar, mesmo quando nunca cá estive.
O céu era bonito. O céu era estrelas, bem separadas, pontos brilhantes, definidos e calados.
O céu era mar. Não vinha ver o mar fazia muito tempo, falar com ele, bebê-lo pelos olhos, pela boca e pelos ouvidos. O mar era sempre esquecido nesses dias. O mar e o céu com as estrelas separadas.
Queriam neve, queriam frio, queriam música!
E o mar nessa noite era música, celestial e açucarada.
O mar era frio, frio bom, frio das luvas, que faz rir.
O mar era também neve, neve no seu estado mais escondido, mais humilde. Era neve também que abandonava as levezas fúteis do branco. Era neve azul, mas neve.
Nunca conheci outra neve, disse, talvez demasiado alto para o co-habitante da praia. Dizer muito sabe melhor na neve. (O caranguejo não concordou e correu a rir-se de mim.) E na lareira. E no fogo que mata neve. E no fogo que vem da neve. Da neve branca. A neve azul não puxa fogo. É inócua. É por isso que ninguém a ouve por estes dias. Ninguém sabe o que inócua quer dizer.
Dizem pouco, pensei calada outra vez. Mas dizer pouco é bom.
Fibonacci

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Onde?

Querida Maria,
Já lá vai um tempo desde a última vez que nos vimos. Espero que esta te encontre de boa saúde. Como vão as coisas por aí?
(...)
Não, não te deves estar a interrogar porque motivo escrevi. É Natal, certo? Toda a gente escreve pelo Natal.
Mas o meu problema é mesmo esse. Não encontro o Natal em lado nenhum, Maria, não encontro.
Nem nas janelas. Nem nas portadas. Nem nas lareiras. Nem nas fogueiras. Nem nos barulhos. Nem nos embrulhos. Nem nas figuras. Nem nos anjos. Nem nas músicas. Nem nos ruídos. Nem nas luzes. Nem nos sentidos. Nem na comida. Nem no frio. Nem na multidão. Nem no vazio.
Muito menos em mim...
(...)
Eu queria o frio que nos lembra o calor, sabes? É tão bom... Eu queria a minha mão a trabalhar. Eu queria comida para dar.
Eu queria luz das velas, não dos candeeiros. Eu queria anjos feitos de sonhos, não de carne e osso. Eu queria sentir cada momento, Maria, cada pessoa, cada melodia. Eu bem queria!
Mas o Mundo já se encarregou de me mostrar que o Natal não é sempre que o Homem quer. E mesmo às vezes nem 25 de Dezembro é. Temos sorte, quando há Natal. Ele tem de ser bem cultivado, desde cedo, com muitas cuidados. Como o Principezinho fazia com a sua rosa, lembras-te? Mas eu, eu esqueci-me da redoma e agora não encontro o meu Natal. Tenho pena, é mais um ano a esperar. E a rezar muito, não vá o Mundo fazer das suas.
(...)
Oh, eu sei! Tenho a minha parte de culpa.
(...)
No entanto, talvez saiba onde o posso encontrar. É a minha última hípótese.
Acabo aqui por hoje. Tenho de procurar.
Um beijo enorme desta que te adora.
Sempre tua,
Lúcia.

Quiçá (Ferida Aberta Noutro Peito)

Talvez o que sempre é tudo, voe.
E o que sempre é riso, chore.
Foi sol, é água, é terra.
Foi fogo, é neve, é feliz.
Talvez a raiva arda
Talvez a saudade enjoe
Talvez a fuga incandescente não sirva
Ou talvez não.
Talvez um beijo inconsciente nos cure, ao de longe.
Talvez alguém nos dê a mão.
Ou talvez outrem nos roube o que é sagrado.
Foi sagrado, é templo, é tempo.
Porque a cabeça abana condolente
sempre, foi assim
(o vento é pária, é nossa sina!)
Mas não quando a brisa roça perto.
Aí, cola-se a nós O Fim.
Talvez.
Ou talvez não.
Não sei.
Quero acreditar em algo maior.
Quero acreditar na transformação.
E o que era Vida, ultrapassa-a.
E o que era caminho, torna-se perfeição.
E o que era Amor, engrandece-o.
O que era Esperança, é Salvação.
Talvez.
Ou talvez não.
Fibonacci

terça-feira, dezembro 19, 2006

Uma última batalha

O corpo linchou a alma.
O mar engoliu o barco, cego e feio.
A terra caiu sobre o Homem.
O cavalo pisou o guerreiro.
As ondas que batiam cansaram-se
Da areia sovada que se calou.
A lança caiu estridente marcando
O chão, a raiz que urrou.

Num grito sem gravidade, celestial,
As cabeças unânimes levantaram
A voz ao céu (e os entes que lá dormem, brilharam!)
Na luz partida do orvalho,
Numa via sacra final.

A alma sobrevoou o corpo
Despedindo-se num beijo demorado.
E o tempo, esse tempo, riu-se, afinal
São só os nossos pedaços o pecado.

Porque viver por ti é mais que viver
E morrer por ti é nascer
outra vez
Eu vi
A terra absolver
O Homem.
O Homem que já nem Homem é.
É mistério.
É melhor.
É fé.
Fibonacci

domingo, dezembro 17, 2006

A tree called life

Porque às vezes tudo o que possa dizer soa a plástico, é tão vão de sentido.
Porque às vezes "perco um continente", perco uma ilha e "uma chave" e a maravilha cai estridente no chão. E do pó se levanta a voz que todos conhecem e ninguém reconheceu.
Porque às vezes me apercebo, e deviam ser mais os dias, que não me expresso tão bem como isso.



I carry your heart with me
by E. E. Cummings


I carry your heart with me (I carry it in
my heart) I am never without it (anywhere
I go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
I fear
no fate (for you are my fate,my sweet) I want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
Here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
I
carry your heart (I carry it in my heart)

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Sempre, corria sempre


Filípides continuava a correr. Sempre. Corria sem força nas pernas, corria com a cabeça balançando ao ritmo do corpo, caída como morta ao lado do pescoço. Corria sem réstia de ar nos pulmões, corria sem pingo de água no seu corpo, dado que esta escorria pela sua pele, encharcando a sua túnica. As sandálias mal lhe protegiam os pés do caminho pedregoso, mas, oh isso!, isso ele já nem sentia. Filípides corria apenas com uma réstia de esperança.
De Atenas até Esparta, de Esparta até Maratona. Ainda não sabia bem porquê. Esperava no seu mais profundo pensamento que a mensagem que trazia animasse as tropas por apenas mais um bocado. Que aguentassem, os espartanos vinham a caminho!
Filípides via tudo como um filme, como se já tivesse passado há muitos, muitos anos. Como se isso fosse possível! E corria. Sempre, corria sempre.


Chegado à planície, viu Maratona coberta de corpos estendidos no chão. Quanto mais se aproximava, mais os semblantes dos estrangeiros contorcidos na poeira do chão e os seus trajes, tão estranhos!, lhe indicavam o caminho para o campo da Morte. Aí, caiu aos pés do General. Sem fôlego, quase sem vida, Filípides sussurrou o fardo que transportara ao longo daqueles quilómetros. Milcíades sorriu, escarnecendo. Pois que viessem. Bem que tinham caído seis mil persas e apenas uma centena dos seus Homens. Agora, ai agora! Agora vinham os espartanos.

Olhou então o rapaz que, deitado no chão de pedra, dava-se por caído. 220 quilómetros os separavam Esparta. Aquilo era um esforço sobre-humano. E foi então que o enviou novamente. Apenas mais 40 quilómetros. Era preciso alguém para anunciar a vitória em Atenas e nem um cavalo o poderia fazer tão rapidamente como um corredor treinado.


Filípides correu, assim, sempre subindo até encontrar o pequeno tempo de Dionísio. Aí, parou. Agora nem o seu metabolismo o ajudava. Não tinha água, mas também não tinha sede. Não tinha já sandálias, mas também achava que já não tinha pés. Corria apenas pela força de vontade. Se ao menos o seu corpo compreendesse! Se ao menos um dia o perdoasse...


Filípides nunca mais se lembrou dos 25 quilómetros, colina abaixo, que o separavam de Atenas. Correu inconsciente, transportando algo maior do que o seu corpo aguentava: um novo futuro para Atenas. Para aquela Atenas que ao longo dos séculos seria lembrada como uma das maiores civilizações do mundo. Aquela Atenas que, a partir daí, começaria a desenhar o futuro de algo maravilhoso para o mundo: a democracia.


Mas Filípides nunca soube disto.

Chegado à Pólis, gritou com todas as forças que lhe restavam: «Atenas venceu, celebrem!».
E expirou.
Olhei rapidamente para trás. Mas não consegui ouvir mais que um ruído rouco.
Fibonacci

sábado, dezembro 09, 2006

Rainha de Copas

Mais uma viagem? Deves estar a brincar... Até parece que não te conheço! A ti e aos teus joguinhos, que nos levam tão lá abaixo. Afundamo-nos no menos-infinito. Olhamos para cima, de bruços, num caixão, o eixo das ordenadas a apontar o infinito e o céu que não nos quer, aqueles pontos de descontinuidade que nos matam devagarinho.
Não vais ter sorte nenhuma, dizem, ai não.
Tal como eu.
E se descermos mais uns andares? Somos intrusos, eu sei, invasão e abordagem. Antes espiões. Cépticos. Muito cépticos. Podíamos lá descer pelo menos mais uma vez. Hécticos. Uma dorzinha de alma e comichão no cotovelo. É do frio, eu sei.
Dizem-me que não há nada como quem nós queremos ou como quem nós perdemos.
(Ou como quem nos perdeu... - Ah ah! Que não jogasse!)
Agora que as folhas se queixam do carvão, eu vou ouvindo os seus latidos enquanto me perco, espinal medula abaixo. Nervos. Bem lá abaixo está uma cave de números menores que zero. Cada vez mais menores. Tanto que me obrigam a esquecer por um bocado a gramática que não foi criada para os expressar (são cada vez mais pequeninos e irreais!).
E eu tão grande!
Sinto-me uma Alice num País sem Rainha de Copas. A cair, eixo abaixo. Se ao menos voasse. Ou uma tangente. Ou uma chave.
«É por isso que andas atrás dela e ela atrás dele. Mas dizê-lo não vai mudar nada. Não, não.»
Mas isso não me importa. Sigo o coelho enquanto espero que um sonho me caia no colo. Bem que é certo: é mais fácil sonhar de olhos bem abertos, a olhar o infinito de estrelas que não vemos.
Mas eu sei que lá estão.
Consigo ouvi-las.
Baixinho.
Perfeitamente.
Fibonacci

Excertos de "No Buses", Arctic Monkeys

terça-feira, dezembro 05, 2006

In a manner of speaking

Numa maneira de me expressar, tão comum de tão rara que é, silencio-me num sorriso mudo. Corro o cabelo do papel e a caneta cansada da semântica que me confunde e se ri de mim. Imploro-te de lábios selados por um grito infindo, uma palavra calada, morta e ofegante no chão. Uma palavra em que tu pegues devagar, um passarinho caído que voltas a sossegar no ninho, numa manhã opaca e branca de Inverno.
Sem dizeres nada, eu percebo-te. Gostava de aprender a voar como tu, nas bancas rasgadas das ruas do Outono e das castanhas; voar como uma castanha.
Naquela certa maneira, eu gostava de ser como tu e calar-me como um livro. De uma certa forma, gostava que percebesses calado que o meu grito não é assim tão fútil e o meu silêncio é a paz do guerreiro que cai do cavalo. Gostava que percebesses que as minhas palavras são tuas, são teu reino, mandas nelas. Gostava que baixasses sempre o polegar, pois, com a outra mão, tu ias levantar a minha face cansada e o meu queixo senil. A tua sentença de morte é a menina dos teus olhos e o remate à minha esperança. A esperança de veres as palavras que calas nas minhas que grito.
O mundo idolatra-te, orador, porque não dizes uma única palavra.
E porque, quando dizes, elas nada significam para eles.
Só para mim.
Tanto para mim que grito.
Fibonacci

Poder de síntese

Tu.
Quem? Eu?
Não mais de uma palavra.
Palavra e meia.
E nem mais um grito, talvez um olhar.
Palavra e meio olhar e estamos combinados.
Para mim?
Para mim.

domingo, dezembro 03, 2006

Tenho-te saudades

E o pior é que não,
pois não.
Pois posso!
e digo-o e tu ris,
sabes tão bem para quem é.
Claro que estás
redondamente
enganado.
Tão enganado.
Rio do teu engano redondo.
Rio que serpenteia numa tonalidade acre
e doce.
E nas doces margens
pára
para
descansar.
Nunca pensarás que é de
ti
mas tenho-te saudades.
Saudades redondas.
Fibonacci

domingo, novembro 26, 2006

Parêntesis (Paraíso)

«Sinto quente. Muito quente. Estranho calor emana do paraíso, julguei que as chamas alastrassem lá por baixo, mas ao que vejo não. Ou melhor, sim. O calor emana é de mim. E esta claridade escura-me e vejo as minhas palmas azuis, tão frias. Frias não, pouco quentes. Complementaridade de bases. Desvarios absolutos e genéticos. Quente, frio, que é isso do morno! O frio tem o poder do calor. Do teu calor. Do teu calor que me assombra e arrepia. Porque quando tu me pegaste, como folha, folha papel, folha árvore a cair, como folha rasgada tu pegaste em mim e eu perdi-me, espinha abaixo. Imagino imagens sem nexo e coerência lógica. Tão reais, mesmo assim. Passou, foi um sonho real que nem me apercebi. Paraíso. Calor. O Teu. Frio meu, desvario em febre. Pegaste em mim e pegaste-me a febre que não tinhas. Sinto quente. Muito quente. É o paraíso. Não, é a febre.»

de um diário que só li porque estava aberto

Desafio

«O Amor é esquisito.
O Amor não serve para nada.
O Amor escreve-se com letra maiúscula por pura vaidade dos
Românticos que se perdem na Palavra que também leva maiúscula porque,
na Verdade,
não existe.
O Mundo não foi pensado para levar com
Aquele Amor à mistura.
Gosta mais do Amor fácil dos doces Olhos amargos bem
Cerrados.
E falangetas bem abertas.
Aquele Amor nunca serviu para nada.
Só estragou Vidas e construiu Verbos.
Desperdício!
Dão a Vida por Palavras que agora, ao olhar para
Mim
Se calam.
Riem-se.
Berram, histéricas.
Calem-se, ridículas!
Não vêem?
É tão bom o amor assim.
Eu não preciso de vocês, nem das letras grandes,
Nem das grandes letras,
Nem dos gritinhos extasiantes.
Eu danço.
E ele gosta.
Isso é amor.
Com letras pequeninas.
Porque fora da nossa alma
Porque o esboço do espírito
Porque o canto do mudo mundo
Porque o amor não gosta que o vejam
Porque quer que o sintam.»

Não foi Fibonacci,
foi alguém que lhe disse
e, sem dúvida, que concorda.
Que nos perdoe Shakespeare no seu túmulo
que para nós o amor nunca vai ser assim.

sexta-feira, novembro 24, 2006

No fundo de um de nós.

Já ali estava há algumas horas. Sem nada que fazer, pensavam os seres não-pensantes que por ali passavam sem sequer olhar. Claro, nada que fazer! Quem fica assim tanto tempo, na estação, sem entrar no comboio, sem abraçar pessoa alguma que chegasse, sem mesmo olhar para os vultos que saíam, ali, à noite?
S. Bento, à noite, e Lúcia ali parada, sem nada para fazer.
Nem mesmo um cigarro. Lúcia não fumava.
Nem mesmo um livro. Lúcia lia, mas porque raio havia de ler numa estação de comboios?
Nem mesmo um olhar esperançoso, num raio x à multidão, a ver se encontrava alguém. Lúcia não queria encontrar ninguém.
Por isso se especou ali. Onde os passos redobravam as vontades de amar e onde o excesso de pessoas cansava ao ponto de se sonhar sozinha.
Tudo aquilo porque tudo o que esperara chegara. O problema do que chega é que passa e Lúcia queria mais. Mas porque é que nunca ninguém lhe havia dado mais? Lúcia queria a eternidade. E a eternidade, sabia, não existe sozinha.
Era isso que Lúcia olhava ali, especada entre tantos relógios, o tempo. Porque só agarraria o espaço atemporal quando percebesse o tempo. Porque só amaria quando visse a solidão.
Lúcia queria morrer à noite e acordar de dia, afundada de cor. A felicidade instantânea, essa, deixava-a para os mortais. Ela precisava de alguém que lhe oferecesse a cura para o tempo e para a solidão. E esperava esse alguém ali, nos comboios, esperando que quando passasse lhe dissesse olá.
Foi ali que encontrei Lúcia. Quando me contou isto não acreditei nela. Doida! Mas eu conhecia-a tão bem. Não sei donde. Talvez ali, dos comboios.
Gosto de pensar que sou diferente dela.
Estou cansada de tentar fugir disto, disto que se calhar nem existe! - disse Lúcia.
«Amar é bom se houver no fundo de um de nós alguma solidão»
Talvez.
Ou talvez não.
Não sei.
Fibonacci

domingo, novembro 19, 2006

Rituais

« - O que é um ritual? - disse o principezinho.

- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas. Por exemplo, os meus caçadores têm um ritual. À quinta-feira, vão dançar com as raparigas da aldeia. Por isso, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear às vinhas. Se os caçadores fossem dançar num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.»

O Princepezinho, de Antoine de Saint-Exupéry

Porque eu deixava a porta aberta e tu, gentilmente, limpavas os sapatos no tapete. Inútil, claro, pois logo que entravas tiravas os sapatos e a gravata e as preocupações. Mas era o nosso ritual.
E era a nossa casa.
Era tão bom na nossa casa!
Lá eu espectava tudo isso como mais um desconcerto lógico de ti, tão usual e tão raro, nessa tua e minha alma, a nossa casa.
Mas eram cada vez mais e mais rituais na nossa vida que depressa esquecíamos que eram sagrados e invioláveis e secretos, pois toda a gente os via. Cada vez mais que eram menos. Que tu já faltavas. Que eu gritava o silêncio daquela culpa que me agrilhava ao que não devia. Porque se te olhava fora daquele ritual só nosso, tinha vergonha e medo que já não fosse importante para ti. Porque se me encontravas na Terra, no solo, no chão, eu tinha medo de não passar do rastejo, de ser mais uma a carregar a suave maldição de Eva.
Era tão bom na nossa casa!
Na nossa casa, eu era anjo, e nas pontas dos pés nós agarrávamos estrelas.
E voávamos, na nossa casa, em dois passos de dança, nós voávamos.
Quem dera o mundo revirasse os seus ideais e nos deixasse fazer da Vida um só ritual.
Um ritual de espera, o ritual do encontro.
Do vôo.
Da música.
E da dança.
Fibonacci

Vila Viçosa, 16 de Fevereiro de 1999

« (...)
Muita gente liga, António, muita gente. Gente tão diferente, gente do campo e da cidade, doutores e crianças... Muita gente liga e eu assisto surpresa todos os dias aos pedidos previsíveis daquela gente e às ainda mais pressentidas dedicatórias. Amor. Tudo dedicatórias de amor. À mãe, ao pai, à filha e ao genro e mesmo à tartaruga da Joaninha! Mas sempre amor.
(...)
Vivo feliz todos os cinzentos e santos dias com esta gente que para lá liga e insiste em me chamar doutora, apesar da minha licenciatura ser filha única. E mandam bolos para a redacção, para a Sra-Dra-do-Pragrama-da-Noite. Quando o Ferreira, o técnico, se entretém a baralhar esta gente, lá ouço um Dra. Milinha da Maia (vergonha das vergonhas para minha mãe que, como sabes, nunca outra coisa permitiu lá em casa que Emília).
Muitas noites passo assim, das 11h às 2h, o programa da noite da Rádio Viçosa. Discos Pedidos.
Tu sabes, António, o porquê da mudança do gigantesco e assombrador Solar de Vila Viçosa para o pequenino estúdio. Mas és o único. (...) Desde há muitos anos que aquela rádio é a minha casa. Aquela gente que liga é a minha família. Conheço a todos pelo nome, a Vila é pequenina, e toda a gente me faz companhia quando pode. Até mesmo o Sr. Padre, sabendo que num dia não ia ter muitos ouvintes, lá ligou, pedindo "aquela do bailarico que agora anda aí muito na moda" e após inúmeras insistências frustradas de saber pelo menos o nome do artista lá levou com o último hit no countdown de Vila Viçosa.
(...)
E foi sempre assim até àquele dia em que ele me ligou. Eu não o conhecia, António, não mesmo, eu juro. Juro-to a ti já que a mim nunca me vou convencer disso, pois mal ele falou eu soube que havia algo nele que eu sempre soubera. Porque não somos o que somos, somos o que fomos e o que havemos de ser, já dizia o Padre António Vieira.
Mas nessa noite, foi outro o disco. Ele ligou e não pediu música, pediu-me a mim. Disse que precisava da minha ajuda e eu da dele. Disse-me que sempre me tinha conhecido e eu a ele. Disse-me para ir ter com ele. Disse-me isto tudo, em directo, na Rádio Viçosa. Disse-me tudo isto e, como por magia, ninguém ouviu. Naquele dia, ninguém ouviu o programa, nem mesmo o Ferreira, que, por vezes, adormecia.
E eu, sabiamente louca, fui. Fui ter com ele, no fim da emissão, aonde dissera estar. Mas não o encontrei, não estava lá.
Nunca mais o vi, nunca mais me ligou. Continuo à sua procura, continuo a tremer cada vez que toca o telefone na redacção à espera que seja ele. Continuo a acreditar que precisava muito de mim e que eu não fui a tempo de o ajudar.
Ajuda-me tu, agora, António, que eu já não consigo mais.
Peço-te, por favor, que me deixes visitar-te aí no Porto. Tirei férias. Preciso do mar. Preciso de pensar. Preciso de ti.
Responde logo que puderes.
Sempre tua amiga,
Emília.
Fibonacci

terça-feira, novembro 14, 2006

Porque

«Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu»
Porque eras tu e ele.
Foste tu que lhe faltaste ali
no sítio onde estava
Foste tu quem lhe lembrou a música
que o outro tocava
Foi o teu vôo que ele contemplou
a luz d'oiro do sol
que à meia-noite aparecia.
Lua redonda, sol de dia.
Uivam os lobos à lua cheia
Pé de meia p'rós ovos na mesa
E uiva ele à menina
que de merdinha enche os seus olhos.
Abrindo-os e fechando-os
num ritmo desacelarado e brutal
Que acorde aquele tal
que adormeça
onde é que isso lhe interessa?
Ciúmes à porta rangem.
Palavras à porta ficam.
A culpa foi toda do beijo!
Pelo que vejo do prazer
não é no fim
assim
tão fácil.
- Mea culpa.
- Desculpas aceites.
- Mas que bonito o amor andará! Tens razão... Mais nada de mim sairá.
Fibonacci

Letra inicial da música
"Porque era ela, porque era eu"
de Chico Buarque

domingo, novembro 12, 2006

Maria

Todas as persongens desta história são fictícias.
Qualquer semelhança com o real é puro acaso.
Lúcia andava de um lado para o outro no quarto. Não sabia o porquê de tudo aquilo agora. Tanto tempo depois. Tanto tempo depois tinha de se lembrar. E tinha de viver tudo outra vez? Não era justo. Não queria viver outra vez aquele dia.
Nesse dia, como de costume, Maria falava e Lúcia ouvia. Desenganem-se, esta Lúcia é outra. Dois anos antes, estava practicamente irreconhecível. Apenas por fora, claro. Mas continuando a nossa história: Lúcia ouvia o que Maria falava. Porque Maria falava bem.
Mas Lúcia estava já farta. Farta de tanta hipocrisia da sua parte, farta de tanta mudança por parte de Maria.
Oh Maria! Onde andas tu, hoje?
Maria era a rocha, Maria era a Vida, Maria era simplesmente Maria. Mas Maria hoje já não era mais Maria. Desde aquele dia.
Lúcia cresceu tanto nesse dia.
Tanto que explodiu: "Maria, já não aguento! Quando quiseres voltar ao que eras, eu vou estar aqui. Mesmo que já ninguém esteja, eu espero por ti. Até lá, não me faças cúmplice disso. Até lá, Maria."
E Maria só respondeu, friamente: "Tenho muita pena que penses assim."
Lúcia saiu, vagueou dois anos pela rua, cresceu, desescondeu-se das saias de Maria. Para ela, Maria morrera.
Bela morte a de Maria!
Lúcia chorou-a. Lúcia fez os quarenta dias de luto negro. Depois fez-se à Vida.
Mas ontem Maria voltou. Maria voltou àquele mesmo lugar onde juntas tinham chorado e rido tantas vezes. Onde Maria ensinara a Lúcia tudo o que sabia e onde Lúcia absorvera toda a informação e carinho como se de um sacramento se tratasse. Como uma benção dum céu nunca idolatrado.
Maria voltou.
Mas Maria não foi ter com Lúcia, como lhe havia prometido. Maria cumprimentou Lúcia, como simples conhecidas e Maria seguiu em frente.
Maria riu.
Lúcia chorou.
Chorou de saudade.
Chorou do síndrome da abstinência que tinha feito de Maria durante dois anos.
Chorou porque queria Maria de volta.
Chorou porque Maria não queria voltar.
Fibonacci

Quando pára o samba

A lua não era redonda e as estrelas não brilhavam. E se tal acontecia não importava porque Lúcia não queria que a lua fosse uma salva de prata nem as estrelas uma outra de palmas.
Para ela, a noite era feia, tinha de ser, porque só isso tinha lógica.
Aquele baile estava a ser uma valente porcaria, pensou. Só pessoas a fingirem-se de interessadas na música pseudo-interessante que saía da grafonola a fingir de velha e a cair de podre. Que felizes estavam as pessoas! Dançavam a valsa e rolavam ao ritmo do passado. Estúpidos! Não era de ver então? Faltava ali os ruge-ruge dos vestidos. E o flap-flap das pestanas postiças. Ninguém pode dançar a valsa de calças de ganga! É estragar o sonho...
Aquele baile estava a ser uma valente porcaria, pensou.
Oh! Quem lhe dera lá estar...
«Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
é bom acabar com isso
Não sou nenhum Pai João
Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Pra não haver bate-boca
Dentro do salão
Quando toca o samba
Eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: Não
Eu agora tenho par
E sai dançando com ele
Alegre e feliz
Quando pára o samba
Bate palma e pede bis»
O fim da música acordou Lúcia outra vez. Sim. Tinha a certeza que ele lá andaria, no meio ruge-ruge das calças de ganga, entretido com o flap-flap das sandálias espartanas. Porcaria de baile! Tinha de acontecer...
Mais um evento para lhe lembrar como o Mundo se tinha esquecido de reservar uma hora para o Amor. Ou para a Música. Ou para Rir. Vá lá, Lúcia, não sejas mesquinha. Isso é tudo a mesma coisa. O Mundo simplesmente já não acredita em nada disso e, a ti, não tas vai deixar conhecer. Vai-te mentalizando. Ou acordas para a Vida ou a dormes toda no sonho.
Mas eu não quero acordar. Desde que também sonhes comigo...
Oh! Aquele baile estava a ser uma valente porcaria, pensou.
Fibonacci

Música de Chico Buarque, «Sem compromisso»

quarta-feira, novembro 08, 2006

Ode ao Narcisismo que Apetece e ao Amor Puro

Ode ao Narcisismo que Apetece
e ao Amor Puro
«Ele não é Narciso
Mas ele gosta de mim
Ele não tem qualquer encanto
Tirando o facto de gostar de mim
Eu sei quem ele é quando tenta ser secreto
Só porque gosta de mim
Mas ele não me tira do sério
Excepto quando me diz que gosta de mim
E eu nem gosto dele
Mas ele gosta de mim»
Só tu, Amor Puro,
Sim! Tu que também gostas de mim
Não me dás a consolação de gostar
De te ver a contemplar e me sentir admirado
(Admirável Mundo Novo)
Algo nunca falado...
Mas isso eu sempre falei!
De que importa de quem gostei?
Ou de quem me olha assim?
Tu sabes, sempre soubeste,
Que és a metade de mim.
És tu o meu ego exacerbado
Num único espírito,
O meu único Fado.
Autor-que-não-quer ser-identificado
Porque o Amor Puro às vezes tem destas coisas. Destas coisas de se rir do Amor em Vão. Porque o Amor Puro foge hoje para viver para o amanhã que se esconde. E porque o próprio Amor Puro também se esconde atrás do tempo e gosta de jogar ao gato e ao rato.
Porque isto diz tudo o que quis dizer, não me posso deixar de acreditar.
Porque isto não diz nada de novo, não posso deixar de desconfiar.
Obrigada a quem me roubou as palavras.
Fibonacci

sábado, novembro 04, 2006

Chocolat

Que bom era!
Fora de mim sem me queimar.

Vejo a liberdade a correr, pela janela
(ou será só o vento?)
Essa liberdade maluca mete-me inveja.
Quem dera pudesse ser assim
não ligar a quem fala por mim
fazer ouvidos moucos
aos sussurros roucos que perturbam
aquele que eu imaginei perfeito.
Mas perfeito não
Perfeito é a solidão
Porque a solidão não tem tempo
nem espaço, nem outras pessoas
a solidão não tem vergonha
a solidão anda nua pela rua
a solidão diz que vale a pena sonhar
a solidão canta enquanto foge do luar
a solidão desenha cidades a lápis.
E a única consolação que lhe sobra
à pobre da solidão
é a saudade.
E a liberdade.
(Aquele vento sem eira nem beira)
Claro que a solidão sozinha
é frio, chocolate quente.
Posto isto, perfeito
perfeitamente
Não vens comigo?
Fibonacci