sexta-feira, novembro 09, 2007

Proposta de tréguas

Ivanhoe foi diferente.

A Ivanhoe faltou-lhe uma capacidade fulcral, que era ler o futuro. Ele não lia, pensava que o fazia acontecer.
Ivanhoe nunca me inspirou, mas aquecia-me.
Ivanhoe nunca parou. Parar é para os fracos. Parar é para quem tem alguém que os espere, na inércia, na ausência de forças, na força maior que não existir.
E agora, não sei se por medo do escuro, se pela claridade exagerada do sol, corre, corre e fala muito alto, para nunca passar despercebido e para nunca deixar perceber o atropelo que é a sua imaginação.
Fala comigo.
Fala comigo, Ivanhoe. Falaste tão alto, no dia em que me disseste que eras diferente, que quase me convenceste.
Fala comigo como se não precisasses de mostrar nada que não és, como se nada do que não sentisses fosse importante.
Fala comigo como se eu fosse uma pedra, e não o prémio do último torneio.
Fala comigo como se eu estivesse longe e nunca chegasse.
Fala comigo como se eu fosse a sombra do teu corpo. (Fala comigo porque chega sempre o dia em que o sol obriga o corpo a desejar a sombra, tal como se fosse a primeira hora.)
E não fales de mim. Que de mim só a memória se esvai, como sangue. E hoje tudo se encontra onde devia. E não fales de ti. Tu nunca te importaste com isso.
Sê alto, Ivanhoe. Sê grande. Sê inteiro. Não aceites menos que isso.
E fala comigo.
Fala como se eu não te ouvisse. Porque não te ouço. Eu não passo daquela sombra que um dia te mostrou que, afinal, és igual aos outros.
Fibonacci

domingo, novembro 04, 2007

Mina

É o ar a subir até ao peito, que quer rebentar de tanto ar, tanta coisa, tanto daquilo que se sente (a cada acorde, a cada batida, a cada suspensão, a cada cadência). E, antes de tudo me voar pelos cabelos e me levantar, abandonando-me ao que sempre me quis prender, vou suster o ar mais um pouco. Porque enquanto é meu, está mais forte. A sua energia passa e passa e arrepia a minha nuca, as minhas pálpebras e as minhas papilas gustativas. Ninguém sabe. A artéria aorta pulsa ao ritmo do mais baixo do palco. Os ombros acompanham a cabeça, que já nem nos pés manda.
Sou tudo o que ele canta. E nunca mais vou acabar.
O bocado meu que lá perdi, lá ficou.
Porque ali ele é mais do que é comigo.
Fibonacci

quinta-feira, novembro 01, 2007

O preço que pagamos foi alto demais.

Trocamos o céu pelo chão. Perdemos o que tínhamos para ganhar aquilo a que nunca tivemos direito. Não tínhamos muito é verdade. Mas eu agarrei-me a tudo como uma tábua de salvação. Como se o mar estivesse agitado. Como se as ondas pequenas se sobrepusessem às grandes e redondas. Mas não.
O céu limpo e eu não via a lua.
Não me serviste de nada. De nada me serviu agarrar-me a ti. Se o barco nunca encalhou, se o céu nunca choveu.
Agora rio ao pensar no que perdi. E no que ganhei com medo de tudo perder. Nada. Nada mais que nada. Só me ficou o que era meu de início. Eu mesma. Se é que mesmo isso continua a ser meu.
Agora só sorrio ao pensar no erro pior que cometi.
Porque foi um erro.
Foi pior.
Foi demasiado pensado.
Fibonacci

sábado, outubro 20, 2007

Lembrei-me do que já foi tão passado

Parece-me que é de mim. Começar a falar sem paragens, sem respirações e depois não ter fôlego para chegar ao fim, expiar todas as palavras cansadas, que, no fundo, nunca quis dizer e agora secou-me a boca, morro à sede.
A quem pergunto, minto, a quem falo, rio e desato a rir e chego mesmo a desejar que sintas o egoísmo que sinto quando tento ser maior e não deixas, porque não tenho voz na mão que sou e ela foge-me todos os dias.
Agora tento ser diferente, agora sou o lirismo que tento esconder na coragem dos outros.
Não há nada de real. Não consigo ser maior. Não consigo os versos heróicos, e a mão puxa-me involuntariamente para as vírgulas, pontos e pontos e vírgulas.
Só o que de mim sai é real. E o real não é assim tão bom.
Perdi-me no futuro, esqueci o passado. E ele não volta. E eu quero que volte. Porque o que fui durante tantos anos era bem melhor que aquilo que sou agora.
Eu amava com a vida, agora aprendi a amar com a pele.
Não quero.
Quero voltar a ser quem era quando nunca tive dúvidas. (Digam o que disserem, ter dúvidas é sempre mau sinal.) E desde que tu foste, apesar de já ter sido há tanto tempo, elas invadem-me de todos os lados.
Tu eras a minha única certeza, foste-o durante tanto e tanto tempo, uma eternidade. Nunca vou conseguir encontrar outra.
Nem quero.
Vou parar por aqui.
Fibonacci

segunda-feira, outubro 15, 2007

Preciso de algo bom.

Preciso de algo bom. Preciso que o tudo não se revele apenas imaginação. Preciso que o mundo volte ao seu eixo, não eu.
Preciso que o norte e sul voltem a acertar, e se juntem, como eram no princípio. O princípio do mundo, quando nunca precisei de coisa alguma assim tão boa.
Isto tem de ser algo bom. A mentira repetida magoa.
Fibonacci

domingo, outubro 14, 2007

Teoria do esquecimento

E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando
Luís de Camões, Os Lusíadas, canto I

Quando o Homem foi maior, ele quis criar o seu próprio destino. Moldá-lo de ferro, forjá-lo em barro. Pelas suas mãos, viver mais que a própria vida. Viver para que quem o ouça o reencarne, e assim transformar-se novamente em algo que nunca foi. Quando a palavra desejo despertava a criação, a morte física aparecia mais suportável que a morte humana, que é o esquecimento.
Quando o Homem se valia da temeridade e enfrentava a Morte, abria os braços, fechava os olhos, e entregava-se face a face ao infinito. E só por uma coisa lutava e só uma queria como prémio. A vida. Uma contra-lei.
O não-esquecimento.
Como o gaulês teme que o céu lhe caia sobre a cabeça, assim temia esse esquecer, o desamor eterno da memória inesquecível. O fim.
O Homem foi maior porque quis ser mais que um homem.
Mas hoje, hoje ninguém me convence que ele, cuja sede o tornou imortal, nunca se sentiu etéreo, ar, pleno e cheio e a abarrotar de uma vontade enorme de se esquecer. Hoje ninguém me convence que ele nunca usou o esquecimento como a sua arma maior. Que nunca, por momentos, precisou de se esquecer de tudo. Nem que nunca deixou a memória fugir por cada um dos seus poros, esvaindo-se, como sangue.
Fibonacci

sábado, outubro 06, 2007

Lógica

Ainda há muito que quero ver. Ainda há muito que não vi, não vivi e, mais que isso, ainda há muito que não vou poder recordar.
Ainda não vi o que é a alma, e onde fica a saudade afinal. Ainda não vi o que é ser maior e sentir o espinho espetado no braço. Ainda não vi a meta, e pensando bem, ainda nem vislumbrei o que está para lá da primeira curva.
Há tanto que me falta. Falta em mim, não de mim. E apanho-me a pensar no que nos define, na nossa expressão designatória, no nosso domínio. Se é o que fizemos, vimos ou pensamos, ou se é aquilo que acima de tudo desejamos e nunca pudemos viver.
Falta-me, a mim, um ou dois mundos inteiros, e mais umas quantas estrelas.
É difícil conceber que já tenha vivido, porque cada segundo sou outra pessoa. E sinto-me outra pessoa, a cada pessoa que passa na minha vida. E vivo outra vida, cada vez que a minha de repente acaba e renasce das cinzas. E nasço. Nasço a cada inspiração, e a cada expiração olho o mundo como se fosse a primeira vez. E como cada primeira vez, não sei se é o medo se é o deslumbramento que me cala.
E é este constante renovar que, ora soprando, ora deixando de soprar, me arranca do que é lógico e me faz acreditar que não há, verdadeiramente, um fim.
As imagens confundem-se demasiado na minha cabeça. É escusado dizer que sei que há outra lógica, dado que o que há de facto é um magnetismo natural para o que é ilógico. Mas há. Há, pelo menos, algo para o qual me viro constantemente. O meu único refúgio quando penso demais, calculo de mais, raciocino demais e vivo de menos.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Destino

O fado, a quem nem os deuses desobedecem, vou construí-lo peça a peça. Vou sonhá-lo, infundá-lo e vivê-lo. Vou alucinar o destino mais maravilhoso. Um destino completamente real. Real de tão ar que é. Real de tão música que é. Real de tão humano, de tão mitológico, de tão deliciosamente escandaloso. Sou tu e és eu sem sermos nós.
Como Jivago, só me morde o ciúme do inferior que me rodeia e persegue. Vejo-vos, aos dois, tão vertiginosamente abaixo de mim que morro asfixiada com o ar rarefeito que me sobra. Falta-me o oxigénio e esbanjo-me em raiva nos olhos turvos de um grito magoado e, mesmo assim, imaculado.
Porque o meu destino é o meu fado. E o tom, sou eu que o dou.
Fibonacci

quinta-feira, outubro 04, 2007

O nada, o tudo e o princípio

Não gosto que me digam o que fazer. Acima de tudo, tenho orgulho no que sou e no que faço, mal ou bem. Mas admito, alguém me conseguiu pôr a pensar. Mesmo no que eu não queria.
Quando criei este blog, no princípio, era assim, tão centrado noutra pessoa. No princípio, nunca quis que se soubesse que era eu que escrevia. Mas a minha vontade de me distanciar era maior, e por isso não menti. Porque para algo deixar de me pertencer, tem de ser meu primeiro.
Confesso, entusiasmei-me. Pensei que podia ser maior. Quase que pensei que podia ser alguém.
Mas agora tenho medo,e estou relutante em postar o que escrevi, e já não me acho com capacidade para tal.
O que mais quero é voltar ao início. Aos pretensiosismos pseudo-literários. Àquele início do qual só gostavam o Guerra, a Mafalda e o meu pai.
Não tenho talento para pensar tanto. Não sei escrever, não sei filosofia e não sei matemática como começam a exigir de mim. Não sei desvendar mistérios e tudo o que queria era poder copiar Herman Hesse, Sophia de Mello Breyner e Isabel Allende mais um bocadinho. Poder ver nascer os meus Narcisos, Goldmundos, Lúcias e Malinches. E os Ivanhoes.
Não, não sei o que é o tudo em concreto. Muito menos o nada em particular. São como o mais e o menos infinito, só os usamos para exagerar. Mas deixem-me exagerar. Deixem de esperar coisas de mim. Nunca criarei uma sucessão ou um conto de natal.
Eu só preciso de chorar no papel, e rir para o ecrã.
Nunca fui especial, como um dia sonhei ser.
Por isso quis-me esconder, no início.
E era o que eu devia ter feito.
Porque o tudo é demasiado pesado para mim. E o nada, eu não o sinto.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Ontem

«Não, não estou nada bem. E sei que nada disto é certo, porque nada mudou. Nada parece ter mudado. Tenho ainda a ínfima esperança que seja tudo da minha cabeça. Não quero passar à história. Especialmente quando tudo o que cresci com esta história foi tão importante para mim. Não quero perder o que tenho de mais importante que é a vossa amizade.
Porque passamos a ser três. E tal nunca me incomodou, pelo contrário. Gostei da mudança, do que vivemos todas, quando ainda éramos todas.
E não foi comigo que vieste falar. Mas percebi isso. Não foi a mim que pediste conselhos. E nisto acima de tudo te compreendo. Não foi comigo, mas sempre pensei que fôssemos três. E se não era comigo que rias, eu ria-me com vocês.
Mas hoje, hoje não foi comigo que foste chorar.
E isso, só isso me faz pensar que já não importo. E julgava ser mais forte que isto. Porque nunca mereci o que tinha. Mas importo-me de não importar. Importo. Mas isso, isso é o mesmo que nada.»
Recuperado de um diário antigo

sábado, setembro 29, 2007

Pôr-do-sol

Fiz o teu luto.

Mostraste-me como podia ser sozinho
E sem ninguém não podia ser melhor.
Mandava nas minhas mãos, nos meus olhos,
Media minha avidez desmedida
Ou o simples teor
Do açúcar metabolizado nas minhas lágrimas.

Tão puramente como naquele início.

O ser sem ninguém.
O ser para alguém que não nos ouve.
O ser para mim, até ao fim,
E só a ao futuro jurar lealdade e eterna dependência.

E depois uma cara, um calor,
uma morte que me deste desta minha ignorância.
Que quando falamos de Amor, quem espera sempre alcança.
Fibonacci

sexta-feira, setembro 28, 2007

Say love

À frente, a estrada; atrás, a saudade. E quando paramos no agora, já nos esquecemos que é passado. E que nunca chegou a ser futuro.
O tempo é tão relativo.
Não o medimos aos anos. Não o medimos aos meses. Não o medimos às luas.
Medimos o céu.
Medimos o calor do sol. Medimos as nossas ideias. Medimos os nossos sonhos. Medimos os nossos amores.
Porque o Amor é a menina dos olhos da Morte ou da Fortuna (ou mesmo do que nos leva a levantar os olhos ao céu). E quer nos apercebamos ou não, é a nossa única bússola, tão intemportal de biológica que é.
Fibonacci

quarta-feira, setembro 26, 2007

Agora precisava de ver o teu nome. Para saber que não estou sozinha.

Já sei acreditar no incrível

Sei que não posso ser de grande ajuda. Sei que não posso fazer, saber ou dizer nada que ajude. Ainda sei melhor que última coisa que precisas agora é de ajuda. Mas sei rir. E se ainda o sei fazer é a ti que o devo. E posso não saber ou conhecer nada. Mas ti, a ti sei-te e conheço-te mais do que queria ou imaginava.
Tu és como eu, somos iguais nós. E ninguém diria. Porque as coisas importantes vêm-se mal. Tu querias um grande amor. Eu também. Ainda acreditamos nisso. Não há muito quem o faça. Agora não estás segura. E eu também não. As nossas histórias são demasiado diferentes para serem parecidas. Mas mesmo isso não sei. Eu arrisquei e perdi. Tu perdeste e arriscaste. Ganhaste. Agora queres mais. E, sabes? tens todo o direito a mais. Já eu, tenho tanto medo de querer mais que fujo do que podia ser tudo. Mas tu não. Nunca fugiste.
Divaguei como sempre.
A única coisa que sei és tu. E tu, tu não desistes. Tu lutas pelo teu final feliz. E és diferente dos outros porque lutas contente, não lutas a saudade. És diferente, e és melhor. E se eu vejo isso, toda a gente vê.
Acima de tudo, tu és melhor. Acima de tudo, tu não tens medo. Mas acima de tudo, tudo o que tu queres é mais. Não tenhas medo disso. Eu acredito que tudo pode acontecer. Acredito que se estás feliz, não podes deixar que o medo da tristeza te apague o brilho dos olhos. Vive. Vive só. Tu és maior e melhor que a tua própria luta. E se agora és feliz - acredita em mim - vais ser para sempre.
Fibonacci

terça-feira, setembro 25, 2007

1ª inversão do arpejo de mi menor

Então porque não? É raiva correctamente direccionada e soprada que me deixa assim.
O Amor pode ser não seja agora. E isso nem me desilude. As minhas perspectivas pós-românticas e realistas líricas podem inverter-se por um pouco. Deixar de lado a vaidade. Chamar a mim todo o meu ego, exacerbado em ti. Deixar que a chuva caia e não fugir. Aceitar que há coisas sem remédio. E não te deixar à espera, nem mais um segundo.
Fibonacci

segunda-feira, setembro 24, 2007

Baile de máscaras

Quando Lúcia entrou na sala eram sete horas da tarde. Tirou o casaco, pendurou-o no bengaleiro, cumprimentou a dona da casa e preparou uma bebida para si. Eram 19h17 no relógio da sala.
Lúcia conhecia as pessoas a seu lado e falava; a sala foi enchendo e Lúcia atropelava-se e ria-se com espasmos, soltando o corpo num contagiante grito controlado. Saltava de voz para voz, de pessoa para pessoa, e com isto o sol pôs-se, a lua cheia brilhou mais, e o relógio deu as nove, as dez, as onze horas.
Num não-sei-como despropositado, Lúcia contou-as a todas. E falava, ria e atropelava-se feliz.
(...)
Quando sentiu uma outra mão na sua, o mundo não se desfez. Lúcia sorriu - se para si ou para fora já não saberia dizer, mas Lúcia conhecia aquela mão estranha. E o mundo não se desfez, nem Lúcia deixou de ver o barulho à sua volta. Apenas desapareceram as horas e a lua. Quando sentiu uma outra mão na sua, o mundo coube todo lá dentro. E vendo tudo, só aquele calor existia, e aquele travo já conhecido da perfeição alastrou-se pelos dedos.
(...)
Lúcia despediu-se da dona da casa eram 4h13 da madrugada. A sua mão esquerda ainda levava marcada a impressão de outra pessoa. E Lúcia não percebia como mas a Lua continuava lá. Imóvel. Como se nada se tivesse passado. E só a ausência do seu usual olhar sarcástico lembrou a Lúcia que, de facto, nada aconteceu.
Fibonacci

quarta-feira, setembro 19, 2007

Take it easy

Durante muito tempo não me apercebi o que me afastava daqui. Já não era a minha casa. Já não era livre de ser quem queria. E eu nem sabia quem me mandava. Era uma dor maior que já não podia aguentar.
Mas fugir não é solução. Nem soluçar ou manter a raiva bem como primeira opção. Vou mudar, relaxar, esquecer-me de tudo até poder voltar à casa que eu conheci.
Dantes, ninguém me visitava, ninguém batia à porta. E eu lamentava-o sem saber que amava essa vida só minha e só ali. Devagarinho, vou voltar a estar à vontade. Devagarinho, as pessoas vão embora. E a casa, toda suja da festa, vai ser só minha outra vez. E vou poder voltar a cantar bem alto, que ninguém ouve. E vou poder voltar a escrever disparates, que ninguém vai ler. Sou só eu e eu outra vez.
Gostava de saber ver a arte. Mas não. Enquanto não tiver a maturidade para a deixar voar, nunca a poderei ver a sair de mim, das minhas mãos, a uma velocidade superior aos meus próprios pensamentos.
Sei que tudo o que é criado deixa de pertencer ao criador. Mas sou uma mãe demasiado protectora, e abafo. Porque sufoco quando alguém vê segundos significados no que não podia ser mais simples, mais puro, mais despropositado. E porque incho de orgulho vão quando alguém vê algo maior do que o real no que escrevo, quando alguém gosta tanto como eu. E não posso sufocar, percebi agora. Mas muito menos posso inchar. Se eu fosse mesmo artista, deixava ir o que criava, deixava que cada pessoa gostasse ou odiasse, interpretasse e se deliciasse à sua maneira. Que seria, com certeza, tão oposta à minha...
Mas não sou.
Mas não sei.
E enquanto não souber, resta-me ser feliz com o que tenho.
E tenho um desejo maior que eu - que deliciosamente não passa disso mesmo: um desejo enorme de ser maior.
Fibonacci

sexta-feira, agosto 31, 2007

Plano

Todos temos um plano. Planos infalíveis, inquebráveis, onde mergulhamos de cabeça, devagarinho, primeiro, e depois tresloucados, deliciados, baixando as pálpebras, mordendo os lábios.
E nesse mitológico negrume respiramos devagarinho e pensamos mesmo descortinar um certo olhar de aprovação.
Uma paixão desenfreada por um plano, como um filho, nascido da nossa carne, ou pelo menos das nossas células e outras coisas cada vez mais microscópias e monstruosas.
E nessa paixão, que deveria ser leal, desconfiamos. E, por isso, guardamos uma pequenina caixa de Pandora, ou de primeiros socorros, ou de últimos planos B. Não gostamos deles, despejamos neles toda a culpa de a nossa primeira inspiração falhar e, por isso, no início nunca lhe damos a devida atenção. No início. Porque no fim nos arrependemos de o não termos pensado melhor, de não termos nunca considerado que a nossa primeira e eterna paixão, a nossa própria decisão e natureza nos ia deixar mal.
Mas deixa, deixa sempre.
E depois somos obrigados a seguir uma segunda via. Uma dor na alma como objectivo. Um 'tem de ser' desgraçado. Apenas e somente apenas porque uma parte de nós (e eu diria mesmo, a grande maioria do que quer que seja que nos constitui) se volta para trás, desesperada, e no entanto deliciada por se transformar em sal, desde que isso permita uma última imagem e um último sorriso ao que tanto nos destruiu e que, mesmo assim, continua a ser a nossa maior força.
Fibonacci

quinta-feira, agosto 30, 2007

Tempestade

Acalma-me saber que não podia ser de outra maneira; ainda respiro por saber que há amanhã.
O capitão não abandona o seu navio e eu decidi esperar com ele o fim da tempestade nem que seja no fundo do mar e muitos séculos.
Só que o reflexo da alma não espera e as minhas mãos estão cansadas, não o seguram. E a minha herança animal, essa não me deixa esquecer a vida. E assim esbracejo para não morrer por livre vontade agarrada a ti. E esbracejando vou tão contra a minha própria natureza como contra a corrente.
O frio da água em remoinho é tão penetrante que a tua mão gelada e estagnada aquece a minha: se decidiste partir, deixa-me ir também. Avisa o meu espelho, para que a minha sombra siga o meu corpo quando este um dia for resgatado.
Se o for.
Eu não quero que seja.
Mas é uma questão de sobrevivência, percebes?
Fibonacci

terça-feira, agosto 14, 2007

Igorância minha

Parece-me que há alguém que acredita em mim. Calo-me perante tamanha certeza, a curiosidade parece matar aos pouquinhos. É tão boa de ouvir, a mentira. E tão boa de sentir, a ternura magoada.
Obrigada, seja quem fores. É que não podias conhecer melhor as manhas para me deixar a sorrir. Esqueces-te que isso nada é senão a tua própria identidade?
Continua a falar, por favor. Eu calo-me. Finjo um pouco mais que estou na mais plena e ingénua das ignorâncias.
Ninguém me pode voltar a dar o que apostei e perdi. Mas tu reparaste em mim. Obrigada.
Fibonacci